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Entrevista a Miguel Caldeira

“Não pode ser só o número de Objetivos, temos de acreditar na Agenda.”

Nome: Miguel Caldeira

Profissão: Assessor de Comunicação da representante especial do secretário-geral sobre a Violência contra a Criança.

Formação: Licenciado em Jornalismo e Comunicação Social e Mestre em Ciência Política na vertente de Advocacia e de Comunicação Política.

Outras funções: Jornalista na TVI, na Lusa e na SIC; Formador no Centro de Formação Protocolar de Jornalistas (Cenjor); Agente de Cooperação no IPAD / Instituto Camões.

Idiomas: Espanhol, Francês, Inglês, Italiano, Português, Sueco, Tétum

Naturalidade: Lisboa

Em 2006, enquanto trabalhava no Cenjor, Miguel Caldeira recebeu um telefonema que mudou a sua vida: acabara de ser convidado para participar num projeto de “media training” apoiado pelas Nações Unidas em Timor-Leste. Aproveitando as suas férias da SIC, depois de ter feito a cobertura do Mundial de 2006, agarrou a oportunidade. Ficou em Timor-Leste 4 anos mas nunca mais deixou as Nações Unidas. Fique a conhecer o seu trabalho aqui!

De Portugal para Nova Iorque, passando por Timor-Leste, como se dá a sua entrada no sistema das Nações Unidas?

Eu fui jornalista durante os primeiros 6 anos da minha vida profissional, uma profissão para a qual senti vocação desde muito cedo. Pouco depois de começar a minha carreira na TVI, abracei outro desafio que era também uma paixão: a educação. Fiz o curso de formação de formadores e pouco depois comecei a dar aulas de jornalismo televisivo no Cenjor. Uma experiência que me marcou muito. Foi graças a essa experiência que surgiu a oportunidade de trabalhar durante 3 meses com o Governo de Timor-Leste para ajudar a criar gabinetes de imprensa nos diferentes ministérios e dar formação a ministros e embaixadores em media training. Na altura, Timor-Leste era o mais novo país do mundo! O projeto correu bem e os 3 meses transformaram-se em 4 anos. Em Timor acabei por desempenhar outras funções o que enriqueceu muito a minha experiência pessoal e profissional. Trabalhar no terreno deu-me um conhecimento profundo das dificuldades e da razão de ser do meu trabalho na ONU. Vejo muitos paralelismos entre o jornalismo e o trabalho nas Nações Unidas: o trabalho para o outro, com o objetivo de transformar sociedades e tornar o mundo um lugar melhor.

Em Timor-Leste esteve ao serviço do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), envolvendo-se em vários projetos radiofónicos e de comunicação locais. Como descreveria essa experiência de terreno?

Foi um período profissional muito feliz da minha vida. Eu tinha uma ideia muito romantizada de Timor, em que não teria qualquer dificuldade com a língua, em adaptar-me ao país, a comida seria a mesma, a cultura muito parecida e não foi isso que encontrei. No primeiro projeto, que durou três meses, os ministros e embaixadores com quem tive a sorte de trabalhar eram fluentes em português, portanto não tive imediatamente esse choque. No segundo projeto, sim. Na altura, quase 10% da população timorense vivia em campos de deslocados por causa de tumultos sociais e políticos. O projeto ao qual me juntei geria uma equipa de rádio (que depois se tornou mais do que isso) que produzia programas de informação para chegar às pessoas que viviam nestes campos. O objetivo era não só informar sobre apoios disponíveis, para que tivessem condições dignas nos campos onde viviam, mas sobretudo ajudá-las a regressar às suas comunidades de origem. Era um projeto formado por uma equipa de 5 jovens aspirantes a jornalistas, sem formação académica e dos quais apenas 1 elemento falava inglês. Os restantes membros da equipa falavam apenas Tétum e Bahasa Indonésio, mas todos gostavam muito de rádio. Conclusão, aprendi Tétum num instante! O trabalho correu muito bem e, depois de sair, foi um projeto que ficou bem enraizado e que se manteve durante muitos anos, mesmo depois da extinção dos campos. Participei também num projeto de apoio aos órgãos eleitorais timorenses e à comunicação social, altura em que se fez pela primeira vez um levantamento sobre o número de jornalistas com dados desagregados por género, idade e distribuição geográfica. Deu-me muito gosto porque julgo que ajudei a tornar as primeiras eleições organizadas por instituições timorenses um sucesso, o que acabou por ajudar o meu percurso. Três meses depois, coordenei um projeto de dois anos do PNUD de apoio a rádios de comunidade, onde fizemos um estudo de viabilidade de um centro de formação para jornalistas, apoiámos a criação de legislação de imprensa e demos cursos de formação a jornalistas das rádios de comunidade. Foi um desafio grande, mas extraordinário porque conheci um país com realidades únicas e gente com grande paixão pelo jornalismo. Por fim, servi como agente de cooperação do IPAD (agora Instituto Camões), em que o meu trabalho consistia em divulgar a nossa língua e ajudar a Rádio e Televisão Timor-Leste a produzir e a falar em português, através da criação de duas redações (uma de televisão e outra de rádio), com o apoio da RTP e do Cenjor. Ao que sei, os jornalistas que descobrimos, e ajudámos a formar, continuam a produzir notícias e a informar os timorenses, o que muito me alegra e orgulha.

De Timor ficaram-lhe bastantes memórias e feitos. É mais fácil medir o impacto do seu trabalho em Timor-Leste, nos projetos com as comunidades locais, ou agora, em Nova Iorque?

Quando se trabalha com jornalistas é muito fácil medir o impacto porque estamos a formar alguém que vai escrever uma notícia que podemos ler no dia seguinte. É fácil medir imediatamente o impacto e a contribuição. Aqui [em Nova Iorque], o impacto do nosso trabalho é mais difícil de avaliar. É um trabalho de longo prazo, em que estamos mais afastados daqueles que tentamos servir. Nós não trabalhamos e vemos o impacto direto em comunidades locais em Nova Iorque. O que fazemos é colaborar com os Estados-membros para que estes possam proteger, nos seus países, as crianças de violência. Como há muitas etapas e estamos fisicamente longe, é mais difícil de medir esse impacto. Por exemplo, acompanhei a representante especial a Moçambique em novembro de 2019. Não conseguimos ver o impacto direto da lei sobre a Prevenção e Combate às Uniões Prematuras, que entrou em vigor no dia em que aterrámos em Maputo, não conseguimos dizer que temos histórias para contar, como “fizemos a diferença neste dia com esta ação”. No entanto, sei que, através do contacto e da sensibilização de agentes da autoridade e membros do Governo com instituições locais, líderes religiosos, organizações não-Governamentais e colegas da ONU no país, estamos a contribuir para garantir a proteção das crianças que vivem na Beira a longo prazo, sobretudo das raparigas.

Fazer do mundo um lugar melhor é um dos grandes objetivos da Agenda 2030. Nas funções que desempenha, como se comunica a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável?

Faz parte do nosso ADN profissional seguirmos esses valores, porque acreditamos neles. Há pouco mais de 30 anos, foi adotada a Convenção do Direito da Criança, que é o tratado internacional na área dos Direitos Humanos mais ratificado da História. Embora para muitos o que está definido na Convenção sejam direitos e garantias “muito básicos”, como o direito inerente à vida, à identidade, nacionalidade, família, educação, proteção de violência, há ainda muito por fazer. Há 30 anos, por exemplo, não existia cyberbulling, não havia internet, as crianças não estavam expostas aos perigos que estão hoje. Estes novos desafios requerem que nos mantenhamos constantemente alerta e cada vez mais determinados em fazer cumprir a Agenda. As novas formas de violência que emergem por esse mundo fora reforçam a nossa motivação para que possamos inspirar os países e as pessoas, com quem trabalhamos, a cumprirem o que foi prometido com a Convenção e com a Agenda. Não pode ser só o número de Objetivos, temos de acreditar na Agenda. Os políticos que a fizeram demonstraram que acreditavam num mundo melhor, mas cumprir os objectivos parte de cada um de nós. Eu há dias ouvia alguém em Portugal dizer: “Ah, isto de não beber por uma palhinha de plástico é só uma gota no oceano”. Sim, é verdade, é só uma gota, mas se todos contribuirmos com “gotas”, conseguimos criar um oceano mais azul, mais limpo. Isto aplica-se ao jornalismo e à violência. Todos nós somos jornalistas quando chegamos a casa ou quando nos encontramos com alguém, contamos o nosso dia, fazemos uma seleção da informação, contamos primeiro o mais importante, tentamos fazê-lo de uma forma rigorosa, etc. Da mesma forma, se mantivermos uma conduta ética-moral respeitadora dos direitos e deveres de cada um, estamos todos a ser funcionários das Nações Unidas. Eu acredito que se todos nós tentarmos ser funcionários das Nações Unidas no nosso dia-a-dia, se fizermos o nosso papel como Agentes da Agenda, estamos a contribuir para que o mundo seja melhor.

Referia que todos somos jornalistas quando chegamos a casa, mas há informações mais difíceis de comunicar do que outras. As crianças são um tema muito acarinhado, muito querido. Como é que se comunica este tema tão sensível?

Miguel Caldeira
Miguel Caldeira

É muito difícil e esse é um dos desafios que mais me intrigam. Eu nunca ouvi, no meu trabalho como funcionário da ONU, alguém dizer que não concorda com a proteção das crianças de violência, nunca ouvi alguém dizer que as crianças devem ser maltratadas. No entanto, não há um país que possa dizer que não tem violência contra a criança dentro das suas fronteiras. Relembro que a Convenção do Direito da Criança foi ratificada por todos os países com assento na ONU, menos por um. Assim, se todos concordam que as crianças devem ser protegidas de violência, e ter os seus direitos salvaguardados, então porque é que continua a existir violência contra as crianças? Muito tem a ver com a vulnerabilidade das crianças. Porque há esta lógica: “se eu fui abusado emocionalmente e funcionou para mim, então vai funcionar também para as crianças de hoje, vai torná-las mais fortes.” E como [as crianças] não têm “voto na matéria” e são, sobretudo, dentro de casa, o elo mais fraco, torna-se difícil comunicar para as crianças e com as crianças. Por isso é, aparentemente, um tema que gera interesse e atenção, torna-se difícil de articular quando sabemos que, muitas vezes, para comunicarmos, estamos a expor uma criança e a aumentar os perigos, a violência e o estigma que a vai rodear. É uma matéria imensamente relevante, mas complicada de desconstruir. Por exemplo, muitas vezes dizemos que as crianças são o futuro. As crianças não são o futuro. No futuro, as crianças são adultos. As crianças são o presente e essa é uma das tónicas da nossa mensagem. Se continuarmos a pensar nas crianças como o futuro, estamos a desresponsabilizar-nos. Hoje é que temos de tomar conta e ajudar as crianças, informá-las melhor, trabalhar e mudar a mentalidade dos que hoje são adultos, que têm de proteger as crianças de hoje. Tudo isto são desafios do ponto de vista da comunicação que nos fazem pensar e que desafiam. Gosto muito de crianças, tenho 3 filhos e também aproveito a minha experiência pessoal para o trabalho porque penso que me torna um comunicador melhor.

A violência é um tema próximo e presente no lar, que não acontece apenas em contexto de conflito. Qual é o maior desafio para lidar com o problema no mundo atual e fazer passar a mensagem?

É uma pergunta muito complicada de responder… Na primeira parte, 100% de acordo. É uma realidade que existe em muitos lares em todos os países do mundo. É fundamental que os países façam um esforço para tentarem perceber a dimensão do problema. Há menos de 2 anos, o nosso Escritório ajudou a preparar um relatório apresentado pelo secretário-geral na Assembleia das Nações Unidas sobre bullying. Foi surpreendente perceber que muitos países alegaram que era uma realidade que não existia no país deles, por esta ou aquela razão. Então fechavam os olhos àquilo que se passava dentro das suas fronteiras. Sobretudo com o uso do digital, com a falta de conhecimento que existe em que os pais veem os filhos com os telefones na mão e não fazem ideia do que os filhos estão a usar, não percebem que há ali um mundo paralelo que de facto dá imensas oportunidades, mas que também expõe as crianças a enormes perigos e essa é uma das grandes preocupações. Esta é uma área onde o multilateralismo precisa urgentemente de ser valorizado porque deixa de haver fronteiras. Infelizmente, a nossa geração, que viveu no pré-digital, não está capacitada e hoje está a criar-se uma “cultura de quarto”. Uma cultura onde as crianças se fecham nos quartos com os telefones e vivem toda uma experiência que os pais não conhecem. Quando eu cresci, se queria sair de casa e os meus pais diziam-me que não eu ficava triste, mas ficava ali ao lado sem acesso ao exterior. Neste momento, as crianças estão ali ao lado, mas estão a viver uma vida paralela; uma vida que a mãe e o pai muitas vezes não conhecem ou sequer compreendem, e na qual estão muito pouco interessados em conhecer.

Tendo em conta a sua experiência pessoal, que conselho daria a todos aqueles que nos leem e que desejam seguir uma carreira na área da cooperação internacional?

Primeiro, perceber se têm o coração no sítio certo. É uma vida que não é fácil. Eu vivo fora de Portugal desde 2006, gosto muito de Portugal e uma vida nas Nações Unidas implica que, na maioria dos casos, se trabalhe num país diferente. Conhecer outros países pode ser divertido, mas como funcionários da ONU, infelizmente, muitas vezes, lidamos com o pior de cada país, com o pior de cada pessoa, porque estamos a tentar ajudar os países e as comunidades a ultrapassarem problemas, e estamos expostos ao pior – às vezes também ao melhor- que a Humanidade tem para oferecer. Por isso, é importante perceber se têm coração para isso, não só para aguentar a saudade, mas sobretudo para aguentar realidades tristes, para arregaçar as mangas e não ficar desmotivado. De seguida, perceber se se dão bem com outras pessoas. No meu Escritório trabalho com pessoas de 8 nacionalidades diferentes com uma bagagem cultural completamente diferente da minha, com pontos de vista completamente diferentes dos meus. É preciso haver uma enorme capacidade de cedência, de compreensão e sobretudo tentarem ser bons trabalhadores em equipa, porque se não for assim nunca se sentirão realizados profissionalmente. Se acreditam que viverão bem fora, que a Humanidade também é perversa, que foram feitos e talhados para trabalhar com pessoas diferentes, que querem mudar, evoluir, perder preconceitos, então sim: invistam. No entanto, estejam preparados pois requer muita paciência. Há muito boa gente pelo mundo fora que está interessada exatamente na mesma coisa e é necessária persistência e perseverança para acreditar que, se lutarem, vão lá chegar. Há muito falta de paciência, sobretudo entre as gerações mais novas, que pensam “quero mudar o mundo e ver os resultados imediatamente.” Às vezes os resultados demoram muito tempo. Devemos continuar a acreditar. Eu nunca pensei em trabalhar nas Nações Unidas, nunca foi o meu sonho de vida, mas há quase quinze anos tornou-se o meu objetivo de vida. Desde que me juntei à ONU, em 2006, estive em Timor-Leste 4 anos e tive 5 trabalhos diferentes e hoje estou no mesmo escritório há mais de 9 anos. São duas experiências completamente diferentes que me ajudaram a conhecer-me melhor e a perceber quem sou e do que sou capaz. Sugiro que se puderem comecem da mesma forma. Em primeiro lugar, com uma experiência no terreno, num país onde as pessoas precisem mais de ajuda, onde o desafio seja maior, para valorizarem as dificuldades, para relativizarem os problemas e para ajudarem a formar cidadãos melhores. Será sem dúvida menos apelativo e as condições de vida são mais complicadas, mas é um banho de humildade fundamental para quem quer dedicar a vida a ajudar o próximo.

ONU News

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